Lisboa, 25 de Abril de 2010. Podia falar das comemorações da Revolução dos Cravos, mas não era a mesma coisa. Troquemos os cravos por uma bola de futsal, 1974 por 2010, e a revolução não foi estatal nem política, foi desportiva e especificamente no Futsal. O Benfica, após 8 anos da criação desta competição, torna-se Campeão Europeu de Futsal de clubes. Brilhante e estrondoso o resultado alcançado pelo Benfica. Mas para melhor enquadrar esta vitória, importa “conhecer” a “história” desta competição. A época 2001/02 marcou a realização da primeira edição da Taça UEFA de Futsal. O primeiro torneio foi disputado no molde de uma fase final, em Lisboa, com as oito melhores equipas europeias, em Fevereiro de 2002, onde nelas se incluía o Sporting CP. O Playas de Castellón de Espanha foi o vencedor, derrotando o Action 21 Charleroi da Bélgica na final. Em 2002/03, o torneio culminou com uma eliminatória final a duas mãos entre o Castellón e o Charleroi. Uma vez mais, a formação espanhola saiu vitoriosa do confronto, averbando o seu segundo título europeu consecutivo. Na época 2003/04, a competição contou com a presença de 33 equipas mas o domínio espanhol continuou. O Boomerang Interviú venceu o Benfica com um resultado total de 7-5. Em 2004/05 chega ao fim a hegemonia espanhola quando o Action 21 Charleroi ergueu finalmente o troféu, derrotando o Dinamo Moscovo por 4-3. Em 2005/06 houve 34 participantes, mas uma alteração no formato da competição - os dois segundos classificados de cada grupo permaneciam em prova e juntavam-se aos vencedores dos respectivos grupos nas meias-finais. Boomerang e Dínamo chegaram à final, cabendo a vitória à equipa espanhola, que reconquistou o troféu depois de ter vencido a primeira mão por 6-3 e ter sobrevivido à deslocação a Moscovo, conseguindo um resultado total de 9-7. Pela primeira vez, 40 clubes participaram na edição de 2006/07, com uma ronda preliminar e uma principal antes da Ronda de Elite, com 16 equipas, na qual Boomerang, Dínamo, Charleroi e El Pozo Murcia foram os vencedores de cada grupo. Este quarteto ganhou o direito de prosseguir para a "final four" do evento, tendo o Dinamo vencido a competição. Seguindo uma perspectiva de evolução, em 2007/08 a prova foi alargada a 44 clubes. O formato manteve-se e, mais uma vez, os quatro vencedores de cada grupo, neste caso Dínamo, El Pozo Múrcia, Kairat Almaty e os estreantes russos do Viz-Sinara Ekaterinburg, atingiram a "final four", e foram os estreantes russos que arrebataram o europeu, depois de um empate a quatro golos frente ao El Pozo Murcia, seguido de um sucesso por 3-2 nas grandes penalidades. A edição 2008/09 voltou a contar com a participação de 44 equipas e foram novamente os cabeças-de-série a atingir a fase final: Ekaterinburg (escolhido como anfitrião), Dínamo, Interviú e Kairat. Registou-se nova derrota russa na final, já que o Interviú venceu por 5-1 e alcançou o seu terceiro sucesso na competição. Época 2009/10, o Benfica acolhe a “final four” no Pavilhão Atlântico em Lisboa, e perante 9400 espectadores, venceu o Interviú por 3-2 após prolongamento, num jogo de futsal para eternizar. Tremenda qualidade individual de todos os intervenientes, enorme qualidade colectiva na forma de jogar, diversas estratégias adoptadas para ultrapassar dificuldades e uma envolvência mágica, para o Benfica e para o futsal português. Em 2007 a selecção esteve na meia-final do europeu, em 2010 estivemos presentes na final do europeu e a nível de clubes, o Benfica foi campeão europeu. O futsal assim torna-se mais conhecido e reconhecido.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Rumo ao Futuro
REFERÊNCIAS:
1. Domingo, no Estádio Cidade de Coimbra ficarem bem perceptíveis 3 pormaiores: o porquê de o Benfica ser primeiro (quando o colectivo é forte e as individualidades desequilibram a vitória fica pertíssimo, mesmo não jogando sempre bem e bonito); o porquê da cobiça ao treinador André Villas Boas (a Académica é muito bem organizada, muito bem estruturada e uma equipa muito rigorosa táctico-estrategicamente, que me deixa surpreendido pela classificação que ocupa) e o talismã deste título (ainda não conquistado) ser Weldon em detrimento de Mantorras no último campeonato conquistado.
2. A entrevista referenciada neste artigo foi concedida ao Jornal Público, em Março de 2010.
Os “santos da casa” e os “milagres”
Vemos por essa Europa fora treinadores, equipas técnicas, atletas e demais intervenientes no fenómeno desportivo relacionado com o futebol e o futsal de nacionalidades diferentes do país onde trabalham. Em Portugal, se a memória não me atraiçoa, apenas duas equipas da Liga Sagres não são comandadas por técnicos portugueses – Marítimo e Leixões. Os demais 14 clubes são orientados por “gente da nossa terra”. Quando os resultados não acompanham as pretensões, facilmente (e naturalmente) se aponta o dedo a quem comanda.
Na nossa vizinha Espanha, após o rescaldo de uma derrota que demonstrou a (enorme) superioridade do Barcelona relativamente ao Real Madrid. Naturalmente, Manuel Pellegrini, não sendo espanhol e muito menos da casa, não faz milagres. Guardiola, santo da casa, vai fazendo “milagres” e que maravilha de “milagres”. Para Madrid, fala-se de “santos” que orientem aqueles “deuses galácticos” do futebol mundial. Fala-se em José Mourinho, “nosso santo”, e ou muito me engano ou acredito mesmo que não sendo da casa, em Madrid iria fazer milagres. O futebol do Barcelona não se discute. E não se trata de saber se Lionel Messi é melhor do que Cristiano Ronaldo. Trata-se de concluir que o Barcelona é muito melhor do que o Real Madrid e de prestar tributo a uma equipa que está pronta a ganhar a I Liga e a Champions, tal qual como fez em 2009. Superior qualidade de um jovem treinador chamado Pep Guardiola - compadre de Luís Figo - que muitos já comparam a Johan Cruyff pelo estilo de liderança, pelo tom de voz, pela magreza do corpo, e, sobretudo, pela sabedoria. Em Camp Nou, estádio do Barça, sempre que há jogo pode ler-se em catalão numa das maiores bancadas “més que un club” [mais do que um clube]. Apetece dizer que Guardiola é “més que un entrenador” [mais do que um treinador]. O Barcelona não ganhou apenas um jogo na casa do eterno rival – Real Madrid. O Barça fez história porque nunca tinha ganho duas vezes consecutivas no Santiago Bernabéu (e se lhe juntarmos o inesquecível 6-2 da última época, mais impressionante se torna). Não basta ao Real ter Cristiano, Higuain e os demais intervenientes. Com 300 milhões de euros investidos esta época (!), o clube está fora da Champions, da Taça do Rei e vai manter a esperança pela Liga Espanhola, que dificilmente o Barça deixará escapar. Para o Real Madrid, o treinador também tem que ser “mais que um treinador”. Precisa o clube de alguém como o nosso Mourinho para estabilizar o clube, o plantel, os jogadores, a equipa, os adeptos, sócios, simpatizantes e o mundo do futebol.
REFERÊNCIAS:
1. Jesus, o Jorge, é da casa e não estando quase a fazer um milagre, vai levando o Benfica ao ambicionado objectivo – o título de campeão nacional.
2. Jesualdo Ferreira foi santo da casa e milagreiro durante 4 épocas mas arrisco a dizer que no final desta época vai procurar outra “freguesia para pregar”.
3. Paulo Bento já era, Carlos Carvalhal está a caminho e para bem do Sporting, a contratação do próximo treinador deverá ser um português, caso contrário, adaptação, conhecimento e rendimento vão demorar o tempo necessário para os outros adversários se distanciarem na luta pelo próximo título de campeão.
terça-feira, 6 de abril de 2010
O (des)complicómetro ensino da tomada de decisão
O “complicómetro” no ensino da tomada de decisão liga-se quando no processo de formação, esta preocupação simplesmente não existe. O “complicómetro” desliga-se se o inverso for real e verdadeira preocupação. Maças e Brito (sd) referem que “a competência base de todo este processo de aprendizagem está centrada na capacidade de decisão que é necessário promover nos jogadores”. Pode parecer simplesmente que o importante é decidir, mas fundamental é decidir em função de um conjunto de regras da organização estrutural e funcional do jogo, determinadas pela ideia e concepção de jogo do treinador. Ou seja, o “descomplicómetro” é decidir em função de um contexto específico, neste caso, um jogo de futebol. E porque logo no futebol de formação o apelo à capacidade de decisão dos seus intervenientes é uma constante, as actividades de preparação dos atletas devem incidir no ensino das execuções motoras (técnicas e tácticas contextuais) em contexto de decisão específico. Cada vez mais continua a parecer-me incorrecto a sistemática abordagem às dimensões do jogo de forma isolada. Cada vez mais autores têm contribuído para inverter esta tendência, apelando à necessidade de centrar a nossa atenção no conhecimento do jogo (dimensão táctica) e da preponderância do ensino da tomada de decisão no contexto específico das variáveis estruturantes da lógica organizacional dos jogos desportivos colectivos (Dietrich (1978); Queiroz (1986); Garganta (1998); Garganta e Pinto (1998); Silveira Ramos (2002), entre outros. As dificuldades, mais que em perceber e aceitar como importante está em operacionalizar através das metodologias utilizadas. Actualmente, muitos treinadores o conseguem operacionalizar. Actualmente, o treino e o treinador têm mais qualidade e isso reflecte-se no futebol de formação, com equipas visivelmente organizadas e com princípios colectivos e individuais que, à uns anos a esta parte, eram inexistentes em algumas equipas. A diferença está em quem planifica e sistematiza, existindo agora um maior rigor e especificidade na construção e aplicação dos exercícios para o ensino do jogo como um todo, mais importante que a soma isolada das suas partes. Agora, que esta preocupação já existe, devem os treinadores deixar de ser o “comando” dos “jogadores” durante o jogo (vai por ali, vem por aqui, passa, remata, cruza, chuta, salta – entre tantos outros feedback’s) para serem o “comando” aquando da planificação. Como? Promovendo e implementando exercícios que levem à tomada de decisão única e exclusivamente individual por parte do jogador, independentemente da idade/escalão/equipa/competição/clube. A preocupação deve recair nas tarefas de decisão. Thorpe (1992), citado por Maças e Brito (sd) refere a este propósito que “é possível haver um bom nível de jogo com técnicas fracas, desde que a abordagem à modalidade realce em primeiro lugar o conhecimento táctico, sendo os pressupostos técnicos considerados num plano secundário para encontrar uma solução / resposta ao problema táctico identificado”, isto é, fraca qualidade técnica com forte capacidade de decisão no contexto específico do jogo resulta num rendimento de qualidade. Torna-se por isso fundamental que, desde os primeiros momentos de aprendizagem do jogo, os jogadores da formação assimilem um conjunto de princípios tácticos para melhor responderem às solicitações que o jogo lhes coloca. Vikers (2000), citado pelos mesmos autores, confirma esta importância ao destacar que “os exercícios baseados na tomada de decisão promovem, a longo prazo, melhores resultados na capacidade de adaptação às exigências do jogo. Já no curto prazo, o ensino tradicional centrado nos comportamentos estereotipados (técnicas) apresentam vantagens aparentes, numa fase inicial da aprendizagem, não sendo confirmadas, mais tarde, na capacidade de interpretação do jogo”. É assim competência do treinador dispor de várias estratégias para implementar os exercícios de treino orientados para a capacidade de decisão dos jogadores, colocando os jogadores em situações reais de jogo para aprenderem a escolher as decisões que devem tomar num contexto concreto e específico de competição. Como refere Maças e Brito (sd), “o importante é definir os aspectos críticos da decisão a tomar para que os jogadores possam antecipar uma resposta em tais condições”.
REFERÊNCIAS:
1. Bons pensamentos, boas dúvidas, boas planificações/sistematizações, bons treinos, boas decisões!